Brave New World
Outubro 18, 2007
Gostava de saber o momento exacto em que começou, em que decidi que ia faze-lo. O momento em que, por alguma razão, ficou claro para mim que o ia fazer e, mais importante, que me achava capaz.
Na verdade, a razão principal foi a investigação, poder estar um ano inteiro a usar os recursos de uma universidade tão reputada como a UAB pagando as propinas da UM, e fazer isso constar do meu currículo. Mas é verdade também que, há medida que o tempo foi passando, outras razões foram surgindo – a aventura, a descoberta, a lição de vida, o teste de saber se seria capaz. E, assim, as duvidas e as incertezas misturaram-se com a certeza, mas em nenhum momento quis de facto desistir. E se, em termos geográficos, cá cheguei no dia 18 (já fez um mês, e nem parece), a verdade é que a minha chegada deu-se muito antes; quando comecei a antecipar as despedidas, quando tive que escolher o que trazer comigo e o que deixar ficar, quando percebi que ia ser um ano diferente, em todos os sentidos, à medida que fechava as malas e uma enorme vontade de chorar me invadia.
Mas, ainda assim, todos os dias encontro razões para rir. Mesmo com todas as dificuldades com a casa (e, sobretudo, com as pessoas com quem a partilho que não são, digamos, muito arrumadas…), com a adaptação, com as saudades, com a língua (porque raio é que, por mais que se tente, os espanhóis nunca hão-de fazer um esforço para tentar perceber o que eu digo?! eu percebo o catalão e o castelhano, o que haverá de errado com o português? – mas este é tema para outro post inteiro, lol), mesmo com tudo o que acontece e que às vezes me faz parar e perguntar “mas o que raio estou eu aqui a fazer?!”, está a valer a pena. E agora já há dias em que acordo e penso “estou em casa”; e agora já há gestos quotidianos que faço sem pensar, como se já os fizesse há muito tempo; e agora os dias já não são tão estranhos, são mais familiares.
E continuo a ter saudades. Muitas. E continuo assustada, e com medo, e por vezes a questionar se vou ser capaz. Mas, ainda assim, tem sido bom. E vai continuar a ser. E, se tudo o que me disseram sobre Erasmus é verdade, vai-me mudar para sempre – e mudar, ainda que seja sempre muito assustador, é por vezes mesmo aquilo de que precisamos =)
Descansem meninas, estou bem e inteira, e a aproveitar tudo (só ligeiramente engripada, lol, mas nada que não passe). E quero muito que durante este ano possam vir cá e ver com os vossos olhos o que vos vou tentar ir contando por aqui =)
E, para rematar, as palavras de outro saem melhor do que as minhas: “When you first arrive in a new city, nothing makes sense. Everything’s unknown, virgin… After you’ve lived here, walked these streets, you’ll know them inside out. You’ll know these people. Once you’ve lived here, crossed this street 10, 20, 1000 times… it’ll belong to you because you’ve lived there. That was about to happen to me, but I didn’t know it yet.” (Xavier, in L’ Auberge espagnole, from Cédric Klapisch, 2001).